Artigos | O Futuro do amazônida: de ribeirinho a "neo-bastardo"
Foi então que compreendi o que viria a ser o neologismo, cujo significado vem para denominar as crianças nascidas sem permissão do estado.
Quieto em minha sala começo então a imaginar uma cena de um futuro próximo na Amazônia e a névoa começa a se desfazer quando vejo... um tribunal.
Vejo sobre a banca do juiz uma folinha marcando o ano 2022. Sentado no banco dos réus, encontra-se um homem humilde, todo acabrunhado e apático, esperando um resultado para o seu caso. Ouvindo o relatório, tenho conhecimento do que se trata: está ali pelo "assassinato" cometido contra uma sucurijú.
Da boca do advogado de defesa, ouço que o simplório acusado, tendo deixado tomar-se pelo desespero ao ver o filho em iminente rota em direção à boca da serpente, sob o domínio do impulso, investiu contra o réptil para salvar a vida de um menino "neo-bastardo". Este já todo enrolado pelo aperto mortal e prestes a ser espremido para servir-lhe de refeição, matando-o a terçadadas (para matar sua curiosidade futurista, não era um terçado-laser). Àquela hora, pergunto a um segurança que história era aquela de "neo-bastardo", ao que, brandamente, me reprime a continuar com a atenção aos desdobramentos do julgamento...
Vejo então, em sequencia, entrar em cena um eloquente promotor público, cujos argumentos parecem convencer a todos do júri que, a cada golpe de seu dedo riscando o ar, balançam a cabeça em uma mistura entre a concordância e a indignação contra o réu, o "ribeirinho assassino". Foi então que compreendi o significado do neologismo, que vem para denominar as crianças nascidas sem permissão do estado. Nesta época, que não está tão distante da nossa, os nascimentos somente serão autorizados a quem comprovar possuir suficientes créditos de carbono ou que, pelo menos, obtenham autorização expressa do Supremo Comitê Lulo/Bolivariano. Não era o caso do pobre ribeirinho, por cuja criança - seu próprio filho - ele nem sequer tinha o direito de dar-lhe um nome, quanto mais salvar-lhe a vida como o seu pai natural.
Em nossa Amazônia futura, face às grandes distâncias e às dificuldades de acesso - as últimas estradas foram aquelas mesmas construídas pelos governos militares do século XX, e já nem sequer existiam mais, tendo sido tomadas pelo mato que cresceu ou servido de campo de plantio para as lucrativas plantações de maconha, liberadas apenas para algumas “seletas empresas” - os neo-bastardos são o resultado da tolerância do estado, incapaz de impor à região uma fiscalização tal qual exercia sobre os grandes centros urbanos. Todavia, isto não lhes significará, em absoluto, qualquer direito à vida com dignidade: serão verdadeiros seres fantasmas, a acarretar a mão pesada do estado contra os responsáveis por qualquer fato de que puderem fazer parte.
Não por outra razão, o veredicto proclamado tratou justamente de esclarecer que o salvamento daquele menino podia explicar a atitude do humilhado homem, sem, contudo, fornecer-lhe a devida justificativa quanto ao ato bárbaro cometido contra o meio-ambiente. Pelo contrário, a sobevivência do menino em detrimento da morte da cobra significava para o senso comum um verdadeiro atentado à mãe natureza, o que, por via de consequência, impunha ao juiz decidir jurisprudencialmente pela condenação do acusado a passar o resto da sua vida nas minas de ferro de Carajás (que naquela época, já terá voltado ao poder estatal), e quanto ao menino... deverá ter o destino comum de tantos outros nascidos ilegalmente sendo então encaminhado para uma usina de reciclagem!!
Postado por Marcos Paulo G Miranda
Editor VM
Ando preocupado com as eleições presidenciais de 2010, ou melhor, com as opções de candidatos. Dentre todos, qual poderá salvar a Amazônia sem aniquilar o amazônida? Ou seja, quem nos poderá livrar do discurso ecológico de segunda categoria e das terceiras intenções?
De um lado temos Lula e Dilma que, em um passado não muito distante, tinham a Amazônia como uma imensa fonte de potencial de riqueza com o utópico projeto da produção de biodiesel pelo processamento de oleaginosas cultivadas pela agricultura familiar e que depois, chegados os primeiros e nada promissores resultados, voltaram-se ao pré-sal e abandonaram todos os que haviam se comprometido com os seus devaneios. E ainda por cima, espalharam reservas extrativistas, amealhando a propriedade privada, sem sequer dizer ao nativo como deveria sobreviver dali em diante, simplesmente criminalizando-o caso saia da linha.
De outro, temos Marina Silva, a ex-ministra que pretendia instalar um corredor polonês aos produtores e exportadores, impondo-lhes a necessidade de obter sequencialmente a anuência de um sem-número de órgãos para que pudessem... ufa, simplesmente trabalhar. Muitos empresários não suportaram e ficaram pelo meio do caminho - vide caso de Breves.
Por fim, um José Serra que, ávido por aparecer aos olhos do mundo como um bom moço capaz de vender a nossa região se preciso for, não nos seria a melhor opção.
Ribeirinho engolido pelas cobras da política com seus discursos de 2ª.