Imagine um lugarejo onde só existem três casas, uma padaria e um comércio. O local poderia ser facilmente cenário de alguma história infantil, mas essa cidade não é uma obra de ficção: atende pelo nome de Boa Vista do Macojumbi, vilarejo localizado em Breves, na Ilha do Marajó, onde Yolanda das Neves Pinto, hoje com 73 anos, viveu sua infância.
As terras onde nasceu Yolanda foram herdadas pelo avô, português, ainda no sistema de Sesmarias. “Quando meu avô veio de Portugal, trouxe os títulos. Eram muitas terras, vários hectares, nem sei mensurar direito. Meu avô deu uns terrenos para cada filho. Depois morreram todos os meus tios e ficou só o meu pai tomando conta de tudo. As terras existem até hoje, ninguém vendeu. Ficou tudo por lá e foram ocupadas por outras pessoas além da família”, conta a marajoara.
Antes de chegar ao Marajó, os ancestrais de Yolanda percorreram uma boa parte da região Norte. “Meu avô era português e minha avó, do Amazonas. Ele a conheceu em Belém e só foram para o Marajó por causa das Sesmarias. Meus avós tiveram meu pai e meus tios em Breves. Já meu pai conheceu minha mãe em Cametá”, narra.
O pai de Yolanda era dono da única padaria e do único comércio que existiam na cidade, além de proprietário de seringais. “Havia algumas propriedades, era uma família que tinha um pouquinho de destaque dentre as outras. Na época da borracha, meu pai tinha seringais e um ‘comércio de aviamento’, onde a pessoa não vê a cor do dinheiro. Eu lembro bem que as pessoas chegavam com aquela borracha, entregavam lá e levavam mercadorias. Meu pai também foi muito ligado à política. Foi prefeito e vereador por muitos mandatos. Tem até uma rua em Breves com o nome do meu pai: vereador Raimundo Neves”.
CASARÃO
Yolanda se lembra de momentos de tranquilidade interiorana, cercada pela família, quando era criança. “Eu tive uma infância tão boa. Eu brincava, subia em árvore, era assim. Só com minha mãe, meus primos, meus irmãos. Quase não se saía de lá, não se conhecia Belém. Vivíamos lá, naquele lugarejozinho, e nossa casa era muito grande. Eu falo para meus filhos que o quarto onde eu dormia com minhas irmãs era do tamanho dessa casa que eu vivo hoje, só o quarto”, conta a anciã, lembrando também a falta de estrutura da época. “Não tinha luz, não tinha água, a gente puxava água de poço. No meu vilarejo também não tinha escola. Eu mesma nunca estudei”, queixa-se.
A residência da família ficava na beira do rio Macojumbi. “Tinha um porto na minha casa. Só se chegava pelo rio. Os fregueses do meu pai iam fazer compras, as pessoas que circulavam por lá moravam distante. Chegavam remando na canoa e remavam muito para chegar lá. Também encostavam muitos navios na minha casa. Esses que vinham do Baixo Amazonas. Embarcavam muito pão, bolacha e biscoito da padaria do papai”, conta.
Só aos 15 anos dona Yolanda conheceu Belém, trazida pelo irmão em uma viagem. Aos 23 anos, fixou moradia na capital, já casada e com filhos. “Antes de vir para cá, morei em Antônio Lemos [também em Breves], que era a comarca do meu marido. Quando fracassou a empresa em que ele trabalhava lá, viemos morar com a minha irmã. Não tinha mais emprego em Breves. Eu tinha duas filhas e não tinha nem leite para comprar. A gente tinha o dinheiro e não tinha onde comprar”.
DITADURA
Sair do interior para a capital foi um desafio de vida que marcou sua memória. “Era tudo muito diferente aqui. A cidade não tinha muitas coisas como hoje, mas já existia o Theatro da Paz, a Basílica, a Sé, caindo aos pedaços”, descreve. A família de Yolanda veio para Belém em 1964, na época da Ditadura. “Foram tempos difíceis. Todo mundo em estado de sítio. Não se podia sair, falar, nem ouvir nada. Tudo era proibido, e nem tínhamos nenhum tipo de militância política. Não tinha essa liberdade de ir e vir. Em Breves, meu irmão continuou na política. Tinha muita perseguição e quiseram até prendê-lo, mas não detiveram nem ele nem ninguém da minha família”.
O grande orgulho de Yolanda, após a mudança para Belém, foi ter formado todos os filhos. “Todos os sete estudaram e são formados pela UFPA. Essa é a vantagem que nós tivemos. Se tivéssemos ficado lá, não iam estudar. Eu me sinto muito feliz por isso, é muito gratificante”.
Da serraria à vida na cabine do caminhão
Aos 19 anos, Yolanda não sabia que o nome Antônio ia marcar tanto e para sempre a sua vida: com essa idade casou com Antônio Alves Teixeira Pinto, em 13 de junho de 1959 (dia de Santo Antônio). Não bastasse, o casal foi morar na vila de Antônio Lemos, também em Breves, onde o marido já morava.
A vida em Antônio Lemos girava em torno das serrarias. Antônio, hoje com 75 anos, chegou a trabalhar em uma até os 16 anos. “Comecei com 12, como auxiliar de máquinas. Fazia essas peças de móveis, tábua para assoalho e outras artes para lá, para Belém e também para o Rio de Janeiro. Quando eu saí de lá, já trabalhava em escritório, tinha que bater máquina. Chamava Manoel Pedro Companhia Limitada, era uma empresa portuguesa”, lembra Antônio. Para ganhar dinheiro, o marajoara fez um pouco de tudo. Além do escritório, tomou conta de aparelhagem de som e foi locutor esportivo. "Eles aproveitavam meu talento e foram me usando”, sorri.
Descendente de portugueses e nordestinos, o pai saiu do nordeste para ser soldado da borracha no Pará.
Quando se mudou para Belém, com 23 anos, já estava casado e com três filhas. “Eu não via um futuro para elas aprenderem, estudarem em Antônio Lemos. Lá era precaríssimo. Aqui conseguimos formar todos, esforço meu e da mulher. Só eu ou só ela que não podia levar o barco para tão longe”.
CAMINHÃO
Na época em que viveu no Marajó, não havia rádio em Breves. Ainda assim, seu Antônio deu um jeitinho de manter-se informado. "Sempre fui curioso, fui me puxando por mim mesmo. Mandava buscar jornal, revista aqui em Belém para ir me atualizando. No Marajó, eu me criei e conheci aquilo tudo andando de canoa, de motor de popa. Aquele rio, até Gurupá eu conheço tudo, centro de Soure, Ponta de Pedras e muito mais", gaba-se.
Em Belém, Antônio foi por cinco anos gerente da recepção do hotel Avenida, localizado na Presidente Vargas. Depois trabalhou como caminhoneiro. “Achei tão bom que passei 23 anos dentro de um caminhão, lutando, mas lutando mesmo. Tinham vezes que começava às 5h30 e chegava em casa às 22h, cheio de lama e areia, mas eu gostei da profissão e me aposentei assim, como autônomo”, relembra ele, que rodou de norte a sul do Pará nas décadas de 70 a 90. "Como paraense que eu sou, gosto muito do Pará.”
(DOL)
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