Artigos | Luto de Breves
No último dia 25 de setembro, a governadora Ana Júlia esteve na cidade de Portel, inaugurando, simbolicamente, o início das obras de implantação do linhão de Portel, que é o primeiro trecho do chamado linhão do Marajó.
Encerrada a solenidade, por volta das 17:00hs, a governadora visitou o belíssimo e grandioso templo da Assembléia de Deus de Portel, ocasião em que foi surpreendida com a presença dos vereadores de Breves que, devidamente uniformizados, diziam na estampa de suas camisetas que Breves era uma terra apenas de deveres e que reclamava seu direito de “beber água limpa e de boa qualidade”, porque a distribuída pela Cosanpa, é suja e tem mau cheiro, devido a estação de tratamento, estar quebrada há meses e nenhuma providência foi tomada.
Essa manifestação, que, aliás, não foi divulgada pela imprensa, terminou em meio a um bate-boca com uma vereadora do PT, o que obrigou o pastor a levar a governadora ao seu escritório, onde, inclusive, teria tomado água com açúcar para acalmar-se.
Depois, em meio ao jantar, houve o protesto dos estudantes de Breves que, portando faixas e cartolinas, reclamavam da falta de professores e da recuperação de duas escolas de ensino médio, cujas obras se arrastam desde o início do ano e que estão paralisadas há meses. E como a governadora não os recebeu, a estudantada reagiu com palavras de ordem, o que, sem dúvida, lembrou o PT de antigamente. E um novo bate-boca estabeleceu-se, desta vez entre o deputado Paulo Rocha e a vereadora do PT que, aliás, foi ameaçada até de expulsão do partido.
No dia seguinte a governadora voltou à Belém, certamente entristecida, não só pelos protestos dos vereadores e estudantes de Breves, mas porque o povo de Portel sabe quem lutou pela implantação do linhão e de que essa obra, a despeito dos discursos falaciosos, será executada pela Rede-Celpa com recursos da Eletrobrás e de que não há nenhum centavo do governo do Estado, a não ser o da topografia do chamado linhão de Portel, que, aliás, foi bancada pelo governo Simão Jatene e cujo trabalho de campo terminou no início de 2005.
Mas como o Marajó continuou esquecido, a Câmara de Vereadores de Breves resolveu convocar o povo para uma grande passeata no último dia 30 de setembro, às 16:00hs, na qual os participantes deveriam vestir camisetas pretas ou portar faixas pretas no braço ou na cabeça, de tal forma que ficasse patente o “luto marajoara” pelo abandono da região e de Breves, em especial, onde, graças ao fechamento das serrarias, houve a dispensa de mais de 7 mil trabalhadores que, hoje, passam fome com suas famílias sem que o governo do Estado tome alguma providência. Tudo isso somado à não conclusão do Hospital Regional, a péssima qualidade da água ingerida pela população de Breves, a não conclusão da reforma das duas escolas de ensino médio, além, é claro, da imperdoável falta de professores que pode comprometer, ainda mais, a q ualidade do ensino naquela cidade.
Honestamente, eu não imaginava que esse movimento, reunisse mais de 500 pessoas, até porque o povo de Breves não tem tradição neste tipo de manifestação. Todavia, como programado, às 16:00hs o povo começou a se reunir em frente ao estádio “Luiz Rebelo” e de lá saiu em passeata pelas ruas da cidade, cujas casas portavam pano preto em suas janelas.
Logo no início havia pouca gente. Mas, conforme a passeata avançava, as pessoas iam se juntando, todas portando a cor preta, de maneira que ao final, já na praça do Operário, em frente a estação hidroviária, seguramente havia mais de 7 mil pessoas, ordeiramente protestando quanto ao descaso da governadora para com a miséria instalada em Breves, graças ao desemprego que atingiu limites insuportáveis e nem por isso os planos de manejo são liberados, para reativar a economia do município e da região das ilhas. E registre-se: no Marajó não há devastação. A floresta está lá. Sempre esteve e sempre estará, até porque a região é de várzea e não permite o chamado corte raso, como ocorre nas regiões de terra firme.
Parabéns aos vereadores de Breves pela iniciativa e pela organização de tão expressiva manifestação, que a todos emocionou, principalmente quando os sinos das igrejas dobraram. Viva Breves!
05/11/2009 Por Nicias Ribeiro - Engenheiro Eletrônico
Artigo publicado no Jornal O LIBERAL em 04/11/2009